
Miguel Torga - nascido a 12-8 --1907
Grande, porque simples e íntegro, o seu profundo humanismo transparece tanto na sua vida de médico como na sua obra.
Mas era através desta que ele desejava ser lembrado.
E ela vale mesmo a pena.
A complexidade humana (dele, mas nossa também), ressalta neste excelente poema, pleno de auto-conhecimento e de verdade. Embora bastante conhecido, nunca é demais relembrá-lo e meditá-lo (porque esta "confissão" poderia ser a de cada um de nós).
LIVRO DE HORAS
Aqui, diante de mim, eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou. Me confesso o bom e o mau
que vão em leme da nau, nesta deriva em que vou.
Me confesso possesso das Virtudes teologais, que são três,
E dos pecados mortais, que são sete,
Quando a terra não repete que são mais.
Me confesso o dono das minhas horas.
O das FACADAS cegas e raivosas
e das Ternuras lúcidas e mansas.
E de ser, de qualquer modo, andanças do mesmo todo.
Me confesso de ser charco e luar de charco
à mistura. De ser a corda do arco
que atira setas acima e abaixo da minha altura.
Me confesso de ser tudo que possa nascer de mim.
De ter raízes no chão desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.
Me confesso de ser Homem:
de ser o anjo caído do tal céu que Deus governa;
de ser o monstro saído do buraco mais fundo da caverna.
Me confesso de ser eu. Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu, aqui, diante de mim!
Miguel Torga, O outro livro de Job, Coimbra, 1958.







.jpg)























Felino preparando-se para o ataque
Amor de mãe
Paixão




