terça-feira, 29 de maio de 2007

Confissão


Centenário de um HOMEM


Miguel Torga - nascido a 12-8 --1907



Sempre, mas especialmente no ano do Centenário do seu nascimento, lembremos o grande Torga.
Grande, porque simples e íntegro, o seu profundo humanismo transparece tanto na sua vida de médico como na sua obra.
Mas era através desta que ele desejava ser lembrado.
E ela vale mesmo a pena.

A complexidade humana (dele, mas nossa também), ressalta neste excelente poema, pleno de auto-conhecimento e de verdade. Embora bastante conhecido, nunca é demais relembrá-lo e meditá-lo (porque esta "confissão" poderia ser a de cada um de nós).



LIVRO DE HORAS

Aqui, diante de mim, eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou. Me confesso o bom e o mau
que vão em leme da nau, nesta deriva em que vou.

Me confesso possesso das Virtudes teologais, que são três,
E dos pecados mortais, que são sete,
Quando a terra não repete que são mais.

Me confesso o dono das minhas horas.
O das FACADAS cegas e raivosas
e das Ternuras lúcidas e mansas.
E de ser, de qualquer modo, andanças do mesmo todo.

Me confesso de ser charco e luar de charco
à mistura. De ser a corda do arco
que atira setas acima e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo que possa nascer de mim.
De ter raízes no chão desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem:
de ser o anjo caído do tal céu que Deus governa;
de ser o monstro saído do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu. Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu, aqui, diante de mim!

Miguel Torga,
O outro livro de Job, Coimbra, 1958.



(Os destaques ea translineação são da responsabilidade da autora do blogue: Os primeiros para destacar ideias-chave, a segunda por conveniência de espaço).


terça-feira, 22 de maio de 2007

Aprender o quê?


Estão a decorrer esta semana as provas de aferição, a Português e Matemática, para alunos do 4º e 6º anos.
Estas provas não contam para a nota dos alunos, mas antes para aferir da eficácia do Ensino, que, nos últimos anos (desde que as provas foram instituídas), não foi muito positiva.

Sem entrar propriamente na polémica do facilitismo actual, contraposto à exigência de outros tempos, (isso fica para outra ocasião), deixo aqui um conhecido e delicioso poema de Fernanda de Castro, relativo a um exame da 4ª classe - não de simples aferição - talvez dos anos 30 ou 40. (Quando os alunos ainda tinham mesmo que compreender o que liam).

Mas o que pretendo é destacar nele os últimos versos, que, com exigência ou facilitismo, me parece continuarem actuais:
Ontem como hoje, continuam a priveligiar-se os conhecimentos académicos, em detrimento da formação humana em outras vertentes (social, ecológica, cívica, de responsabilidade, de tolerância, de auto-conhecimento, etc.)



Reminiscência


"Lisboa, Santarém, Porto, Leiria..."
(eu sabia de cor toda a corografia)
O Senhor Inspector
deu-me a nota mais alta em Geografia
e disse gravemente:
_"Continua. Hás-de ser gente..."

"Ângulo recto, agudo, cateto, hipotenusa..."
(já manchara de giz a minha blusa,
mas respondia a tudo e a professora sorria
enquanto eu papagueava a Geometria).

"...D. Sancho, o Povoador... D. Dinis, o Lavrador..."
(Tinha então boa memória, sabia as datas da História)
1580, 1640, 1143, em Arcos de Valdevez..."

("Muito bem, sim senhor! A pequena é simpática")
E depois, em voz alta, o senhor Inspector:
_"Vamos lá à Gramática."
_"...E, nem, nem só, mas também... conjunções copulativas".


(Eu pensava na alegria que ia dar à minha mãe,
nas frases admirativas da velha D. Maria,
a minha primeira mestra:
-Tão novinha e ficou "bem"! -
e esta suavíssima orquestra acompanhava em surdina
o meu primeiro exame de menina
aplicada, orgulhosa, inteligente...)

_"Vá ao quadro, menina." Docilmente, fiz os problemas,
dividi fracções, disse as regras das quatro operações
e finalmente,
o senhor Inspector felicitou-me, quis saber o meu nome
e declarou-me que ficara "distinta", sem favor.

Ah! Que esplendor!
Que alegria total e sem mistura!
Que orgulho, que vaidade!
Olhei de frente o sol, e a claridade
não me cegou, julguei-a quase escura...
As estrelas, fitei-as como iguais. Melhor, como rivais...
E a Humanidade pareceu-me um rebanho sem vontade,
uma vasta colónia de formigas...
(As minhas pobres, tímidas amigas!)

Pouco depois, em casa, a testa em fogo, o olhar em brasa,
gritei num desafio à terra, ao céu, ao mar, ao rio:

_"Ó mãe, eu já sei tudo!"

No seu olhar tranquilo de veludo, naquele olhar profundo,
que era todo o meu mundo, passou uma ironia tão velada,
uma ironia tão funda, tão calada,
que ainda hoje murmuro cada dia:

_"Ó mãe, eu não sei nada!..."

Fernanda de Castro, em Trinta e nove Poemas


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NOTA: A propósito do "auto-retrato" da postagem anterior, e para dissipar algumas dúvidas que surgiram:
Cronologicamente tenho 61 anos (para quem não tenha ido ver ao "perfil"), e referi que tinha feito o "retrato" a partir de um espelho interno, num momento de óptimas lembranças e de euforia (como num sonho).
Alguém vê a sua idade e imperfeições nesse estado de devaneio e ilusão? Se eu até "vi" uma imagem muito melhor que a do desenho......

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sexta-feira, 18 de maio de 2007

SORRISO

Duma encantada ilha atlântica e pela mão da APRENDIZ DE VIAJANTE, recebi há dias o seguinte "meme":

"A felicidade é sobretudo uma atitude que passa por um sorriso", junto com a informação de que apenas precisamos de 14 músculos para sorrir.


Ao contrário do que inicialmente pensei, o meme não é nenhum prémio, embora tenha um pouco a forma de "corrente", uma vez que é para receber, fazer o que se quiser com ele e em seguida passar o novo produto a outros.
Nesta última parte, e já que sou um tanto refractária a correntes, vou passá-lo à minha maneira, sem fazer nomeações formais.

Quanto ao que posso fazer com ele (e uma vez que tudo é permitido, incluindo desenhos, frases, etc.), comecei por ler a frase e concordar que é óptimo ser feliz, e que sorrir à vida ajuda muito.

E pensei mais: se é bom, por que não mostrar o meu sorriso?
Ora é isso mesmo: um auto-retrato sorridente.

Toca a pegar num espelho, papel e lápis, e começar a mover os tais 14 músculos.
Bem, tentei várias poses, mexi e remexi músculos, mas o espelho não reflectia nenhum sorriso interessante.

Então tentei outra táctica:
Comecei a pensar em momentos felizes, em pessoas extraordinárias com quem me cruzei na vida, em tanta coisa que me fez crescer... E aí... Eureka! - comecei a sorrir por dentro e por fora, não sei com quantos músculos.

De tal modo que nem precisei mais do espelho, já que comecei a ver a minha imagem reflectida por dentro. E foi nessa que peguei para fazer o tal auto-retrato sorridente.

Só que...azar ou má fortuna... a habilidade é pouca e os lápis não tinham todos os tons de que precisava.
Resultado: saiu apenas este esboço, muito inferior à imagem do meu espelho interno; porque esse espelho tinha-me mostrado um sorriso muito mais brilhante, num rosto muito mais jovem e belo que este que aqui deixo.
Paciência! Tentem compensar com a imaginação.



Dada a insuficiência do retrato, acrescento duas citações sobre o sorriso e o olhar, com as quais completo o meu "meme":

"Sorriso é uma luz na janela do rosto mostrando que o coração está em casa"
- autor desconhecido.

"Os homens são constituídos de tal modo que resistem à argumentação mais ponderada; no entanto, cedem a um olhar" - Honoré de Balzac
(ignoro se Balzac se referia aos "homens" no sentido de seres humanos em geral, ou, mais prosaicamente, no sentido de "machos" humanos).


E agora, para concluir e passar o testemunho, convido toda a gente a sorrir, ou mesmo a rir.
Podem servir-se para isso dos músculos, de lembranças, de anedotas, tudo serve ...
Depois convido a comunicar o resultado: podem fazê-lo aqui nos comentários, mas seria bom que alguns o fizessem também nos próprios blogues. (Considerem-se meus convidados).
Aceitam-se todas as linguagens: frases, textos, poemas, desenhos, músicas... e tudo o mais que a imaginação permitir.

Bons sorrisos!

E façam favor de ser felizes!




domingo, 13 de maio de 2007

Bucólica



Cansaços ... lassidão ...
hoje apetece-me um pouco de ... bucolismo


(É um daqueles dias em que "pensar ",... nem pensar!)
(mas há sempre qualquer coisa para partilhar)

papoilas - acrílico sobre tela - Margri


De tarde

Naquele piquenique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima de uns penhascos,
nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
e pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios, como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda,
O ramalhete rubro de papoulas!

Cesário Verde


segunda-feira, 7 de maio de 2007

PRÉ-mio


Ui! Vejam lá que até aqui chegou um desses troféus que nesta altura polulam (poluem?...) a blogosfera.

Agradeço a boa intenção à minha amiga bloguista do "Je vois la vie en vert".
Como ela o atribuiu pela criatividade e toque francês, ele só pode ir para o colaborador do blogue (Michel), autor da maior parte das criações aqui passadas.
Por isso, resolvi modificar o "boneco", a fim de o tornar mais adequado ao prémio atribuído (exibo-o aqui só em atenção a esse colaborador e apenas nesta postagem; não o vou guardar como troféu na banda lateral).

Como me indicava um "link", digo, ligação, para saber as regras, lá fui à procura.
Mas estava em inglês (este tipo de coisas costuma vir dos States); ainda ninguém se tinha dado ao trabalho de o traduzir, já que nas colónias é sempre imposta a Língua do Império.
Só que eu, indígena convicta, não tenho que perceber o linguajar do imperador Bush ou de Sua graciosa Majestade, a imperatriz, e portanto não tenho regras a cumprir. Que bom!

Sem deixar de brincar com esta coisa, direi mais a sério:

1 - Isto parece uma daquelas cadeias que se recebem por "mail"
(vá lá, aqui rendo-me, já que "correio electrónico" é muito comprido), com recomendação de não interromper (eu sempre interrompo, ou, se gosto, envio para quem me apetece, sem ligar ao nº indicado de pessoas).

2 - Tem um aspecto competitivo, que não me agrada muito: porquê distinguir uns e não outros, também interessantes?

3 - Li por aí que se destinava aos blogues que "fazem pensar". Então e os que fazem rir, ou emocionar-se, ou aceder à partilha de qualquer coisa, não têm mérito?

Acho que um blogue é por natureza aquilo que o seu autor quer exprimir ou partilhar num dado momento, e daí a enorme variedade de géneros, estilos e temas, que fazem a riqueza da blogosfera.

Por tudo isto, vou mais uma vez interromper a cadeia.
Se quiserem saber os blogues que visito, alguns deles (só alguns) estão aqui ao lado, e há para vários gostos. São mais que 5, mas eu também não seria capaz de escolher nem 5, nem 10, nem 20.

Bem, agradeço na mesma a "Je vois la vie en vert" (ligação ao lado), um blogue cheio de sensibilidade e intercultural, onde se podem ouvir belas músicas e canções (à escolha), especialmente francófonas, mas não só. Estamos tão ensopados em cultura anglo/americana, que vamos esquecendo outras - e até a nossa - tão ricas de conteúdo e beleza.



Esta postagem foi apenas um parentesis. Podem continuar a comentar na postagem abaixo.



sexta-feira, 4 de maio de 2007

Corujas, Palavras.... - 1

Não sei se as corujas são animais sábios, mas vou aproveitar o símbolo para associar corujinhas com frases que alguém disse e me fizeram pensar.
Não é que todas as citações sejam obrigatoriamente sábias, mas escolhi algumas que, pelo menos para mim, têm um pouco de "sumo".

Já agora, digam vocês também se alguma(s) frase(s) vos tocou um bocadinho, ou se gostaram mais de alguma das corujinhas.

corujas, mochos - colagens e pintura: Michel G. e Margri
"Não há nada mais fácil do que achar defeitos: não é preciso talento, nem sacrifícios, nem inteligência para a gente se estabelecer no ramo das reclamações". - Robert West

"A ostentação é uma fonte de sofrimento, e a época feliz da vida começa quando desistimos dela". - Nicolas Chamfort

"Quem encontra sem procurar, é porque já procurou sem encontrar" . - autor desconhecido

"Os seres humanos talvez nunca sejam tão assustadores como quando não têm dúvida alguma de que estão certos". - Laurens van der Post


"A Felicidade é um perfume que não se pode espargir sobre os outros sem deixar cair algumas gotas sobre nós mesmos". - Emerson

"Quando encontrar alguém que seja desagradável para os outros, pode ficar certo que essa pessoa não está satisfeita consigo mesma; a intensidade da mágoa que causamos aos outros é directamente proporcional ao sofrimento que sentimos dentro de nós mesmos". - S. J. H.


terça-feira, 1 de maio de 2007

Maio: flores da Felicidade



(foto tirada da Internet)

Hoje, 1º de Maio, oferecemos a todos os amigos virtuais um virtual raminho de lírio-do-vale ou flor da felicidade ( "muguet" em francês, não sei se alguém conhece o nome em latim).

Embora esta oferta não seja uma tradição nacional, é-o em alguns outros países nesta data; é-o por exemplo em França, país de origem do Michel - discreto colaborador deste blogue, mais dado às colagens que às informáticas ou às palavras.

Além de acharmos esta flor campestre de uma beleza simples e encantadora (como a amizade), o gesto de a oferecer costuma ser uma maneira de desejar felicidade aos que a recebem.

Tem certas semelhanças simbólicas com o nosso
(antigo) dia da espiga, mas este ramo é só de uma planta, e só tem significado se for oferecido (além de ser numa data diferente ).

E também é uma forma de agradecer a todos os que por aqui têm passado e deixado mensagens, sejam de simpatia, de reflexão, ou apenas para deixar um sorriso.

Obrigada e um raminho de "muguet" para todos. (Os desejos de Felicidade e Paz não são apenas virtuais).

Margri e Michel




terça-feira, 24 de abril de 2007

LIBERDADE




Asas, símbolo da Liberdade:
Que ninguém se prive de as dar
à mente e ao coração !


aves - colagens de conchas e pedras - Michel G.




Liberdade: de tão gritada, vai sofrendo algum desgaste e esquecemos algumas das suas vertentes.
Hoje quero dar destaque a uma das esquecidas: A liberdade de pensamento, aquela que vem de dentro de nós, mais que de fora.
Essa não precisou de 25 de Abril para existir, mas ainda precisaria de uma verdadeira Revolução mental para se implantar e manifestar.

Porque é tão mais fácil não pensar por si próprio...
É tão mais fácil aderir aos moldes e normas pré-fabricados, deixar-se levar pela corrente, ir onde outros vão, fazer o que outros fazem, seja porque é tradicional ou porque, ao contrário, está na moda...

E as nossas próprias escolhas?
Quando elas forem verdadeiramente nossas, respeitando as dos outros e aceitando plenamente as suas diferenças, então Liberdade terá todo o seu sentido.


Liberdade

_ Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
a pedir-te, humildemente,
o pão de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
nem me ouvia.

_ Liberdade,
que estais na terra...
E a minha voz crescia
de emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
a fé que ressumava
da oração.

Até que um dia, corajosamente,
olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
saborear, enfim,
o pão da minha fome.
_Liberdade,
que estais em mim,
santificado seja o vosso nome.

Miguel Torga, Diário XII



Livre

Não há machado que corte
a raiz ao pensamento.
Não há morte para o vento, não há morte.

Se ao morrer o coração,
morresse a luz que lhe é querida,
sem razão seria a vida, sem razão.

Nada apaga a luz que vive
num amor, num pensamento,
porque é livre como o vento, porque é livre.

Carlos de Oliveira,
As Canções Heróicas




domingo, 15 de abril de 2007

VALEU A PENA



Os barcos são só para ilustrar:
(as etapas, a viagem, qual é a direcção)

O Poema, esse sim, é para pensar:
(Que Vida? Que balanço? Que conclusão?)



Barcos - colagens e pintura: Michel e Margri


























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DEPOIMENTO

Foi na vida real como nos sonhos:
nunca pisei um chão com segurança.
Procuro na lembrança
um sólido caminho percorrido,
e vejo sempre um Barco sacudido
pelas ondas raivosas do destino:
Um barco inconsciente de menino,
Um barco temerário de rapaz,
e um barco de homem, que já não domino
Entre os rochedos onde se desfaz.

Mas o céu era belo
Quando a noite o seu dono o acendia;
e era belo o sorriso da poesia,
e belo o amor, dragão insatisfeito.
E era belo não ter dentro do peito
nem medo, nem remorsos, nem vaidade.

Por isso digo que valeu a pena
a dura realidade
desta viagem trágico-terrena
sempre batida pela tempestade.

Migu
el Torga, Em Orfeu Rebelde (1970)



Como Torga, faço por vezes o meu balanço. Não é obrigatório estar na recta final (há tantas etapas ao longo do percurso ...)
E, cada vez mais, a minha conclusão se assemelha à dele:

Com as dificuldades para ultrapassar; a alegria para reconfortar ; os erros para aprender e reflectir; com os outros para dar, para receber , ou para conhecer e tolerar a diversidade; com a dor para sair mais forte e apreciar a sua ausência, a beleza e o amor para confiar ....... com todas essas tempestades e alguma bonança, também digo que valeu e continua a valer a pena.
(E quando a Vida vale a pena, a Morte já não é um problema).



terça-feira, 10 de abril de 2007

Miauuu...

Por que me fascinam os gatos?

Não dão o seu afecto tão efusivamente como os cães, é certo.
Mas encontro afinidades com o seu desprendimento, com a sua independência,
com aqueles ares misteriosos e lânguidos...

Por isso às vezes me entretenho a desenhá-los ou a pintá-los,
principalmente sobre pedras,
mais pelo prazer, sem grandes preocupações artísticas
(numa de "nonchalant", filosofia de gato).

Aqui ficam algumas das minhas patadas, com um poema de F. Pessoa,
que talvez tivesse idênticas afinidades.

























Os meus gatos - Pinturas em pedras - Margri


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Gato que brincas na rua
como se fosse na cama,
invejo a sorte que é tua
porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
que regem pedras e gentes,
que tens instintos gerais
e sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
conheço-me e não sou eu.

Fernando Pessoa, 01-1931

sábado, 7 de abril de 2007

PÁSCOA

Boa Páscoa!... E viva a Vida!!!


(Pedras e conchas - colagens e pintura - Michel G.)

Ufff!... Cheguei!
Vim a correr, como o primo d'América (o Bugs),
porque Páscoa sem mim não é Páscoa...




Mamã!!! Tu não vais deixar que eles comam
o mano, só porque está dentro de um ovinho!...






Alto lá!!!
Neste aqui ninguém toca!
Ou querem levar uma bicada a sério?...



segunda-feira, 2 de abril de 2007

AS MÃOS - CATEDRAL

"Com mãos se faz a paz, se faz a guerra..."

O quadro abaixo foi um dos meus primeiros trabalhitos em pintura,
e é obviamente de principiante, quase sem técnica nenhuma.

Mas tem para mim algum simbolismo, já que o fiz a partir da famosa
escultura de Rodin, "A Catedral", essa sim, magnífica.
Foi a maneira que encontrei de prestar homenagem a esse belo
instrumento, as mãos, ao mesmo tempo que a Rodin,
e agora aproveito para reflectir um pouco a partir daí:


Somos feitos de tal modo que não damos qualquer importância
ao que possuímos, a não ser quando o perdemos (temporária
ou definitivamente).
Há uns anos atrás tive essa experiência,
felizmente temporária: devido a uma pequena fractura,
fiquei algum tempo impossibilitada de usar a mão direita.
Nessa altura dei-me conta de quão extraordinárias e indispensáveis
são as mãos (e naturalmente tudo o resto).


Agora, olho para elas de modo diferente e, como Rodin, vejo nelas
a beleza e o simbolismo
de uma catedral, mas mais indispensáveis.


Quem dera não precisarmos mais de perdas
temporárias para admirar e valorizar tudo o que temos
ou nos rodeia,
em vez de apenas repararmos no que não temos,
seja de que ordem for, como é nosso hábito!


As mãos - Catedral - Guache sobre papel - Margri

segunda-feira, 26 de março de 2007

Presentes do mar










Quem não se lembra de criança para, encantados olhar as nuvens e ver um céu sem cavalos galopar, Castelos, e tudo o mais que a imaginação permitia?
Porém, os adultos diziam: "São apenas nuvens".
E nos habituamos la como um calar nossas fantasias, a nossa criança interior.
Mas um dia, porque "o sonho comanda a vida", ousamos abrir de novo as portas à imaginação:
Agora é o mar que nos traz estranhos animais ou figuras humanas: às vezes num é só pegar resto de tronco corroído pelas vagas, outras vezes apanha-se uma pedra e acrescenta-se-lhe uma "cabeça" Duas ou, com outras pedras, Cola-se, Enverniza-se, e. .. já está.
Nem sequer dá muito trabalho a fazer, e para encontrar os materiais só aproveitar e como caminhadas à beira-mar (ou beira rio) com olhos curiosos e mente destravada.






Felino preparando-se para o ataque


Amor de mãe




Paixão



Meditando




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quinta-feira, 22 de março de 2007

A Primavera dos Animais

Colagens de Michel G.


Cuidado: Estou a ver-te! ...

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"Deixem-me dormir uma soneca minha ... Sonhar é preciso ..."


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"Eu cá não tenho tempo p'ra dormir! Há que fazer o ninho depressa, os filhotes não vão tardar ..."

terça-feira, 20 de março de 2007

Renascer

O equinócio da Primavera serve de mote para iniciar este blogue, com algumas imagens a sugerir o renascer da Natureza, tal como renascem os nossos corações, sempre à espreita de um raio de sol - qualquer que ele seja - para desabrochar.

Primavera - Acrílico sobre tela - Margri




"Há uma Primavera em cada Vida,
é preciso cantá-la assim florida,
pois se Deus nos deu voz foi p'ra cantar..."
(Florbela Espanca)




E se houvesse mais que uma Primavera em cada Vida?
Naturalmente pensamos apenas na primavera física, por volta dos 20, quando há " sangue na guelra".
Mas outras, de outro tipo, podem acontecer em qualquer idade, quando o coração e a mente, reconciliados e mais serenos, se abrirem à realidade total, com toda a paleta de cores e matizes, como em todas as Primaveras.

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(Colagens de materiais recuperados - pedras, pedaços de conchas, bocados de madeira..., -feitos por Michel G., colaborador deste blogue)


Corujas e flores
Flores, sempre flores, fonte permanente de inspiração;
e, em todo o lado, a vida a renovar-se...



Coruja
"Sei que sou o símbolo da sabedoria, mas, nesta época,
o mais sábio é arejar as ideias e abrir novos horizontes!
Já Blake dizia que "quem nunca altera a sua opinião
é como a água estagnada e começa a criar
répteis no espírito".