quinta-feira, 21 de junho de 2007

Férias

(Nascer do Sol no solstício de Verão em Stonehenge - Inglaterra)

Aproveitamos o Solstício de Verão para iniciar férias - descansar, reorganizar coisas, viajar, visitar amigos e familiares longínquos.

Assim, o blogue terá também direito a uma pausa.

Quando reabrir (data imprevisível), darei sinal aos visitantes regulares, bem como a outros que aqui deixem esse desejo.

Até lá, agradeço a todos os que por aqui têm passado (ou vierem a passar), desejando-lhes um bom Verão e óptimas férias.

E porque, especialmente este ano, quero lembrar Miguel Torga (o seu centenário é em Agosto, mês de férias), aqui deixo mais um pouco da sua poesia:



Prelúdio

Reteso as cordas desta velha lira,
tonta viola, que de mão em mão,
se afina e desafina, e donde ninguém tira
senão acordes de inquietação.

Chegou a minha vez, e não hesito:
Quero ao menos falhar em tom agudo.
Cada som como um grito,
que no seu desespero diga tudo.

E arrepelo a cítara divina.
Agora ou nunca - meu refrão antigo.
O destino destina,
mas o resto é comigo.


Miguel Torga,
em Orfeu Rebelde




sábado, 16 de junho de 2007

VIDA



















flores - pedras e conchas

(Colagens - Michel G.)



Flores para celebrar a Vida, que veio lembrar quão frágil é o fio que a mantém.

Há abanões que ajudam a dar mais valor a cada minuto, a cada palavra, a cada gesto... (que se disseram e fizeram ou que ficaram por dizer e por fazer).


Não é preciso vasculhar muito, nem procurar palavras rebuscadas, para encontrar o poema adequado à situação:



A Vida

A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve,
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai;
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave;
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou.
A vida - pena caída
Da asa de ave ferida -
De vale em vale impelida
A vida o vento a levou.


João de Deus


sábado, 9 de junho de 2007

Aveiro - Dia de Camões - Exposição de pintura

Especialmente para os aveirenses ou pessoas da região, a Nova Acrópole (ver) festeja o dia de Camões com um recital de poesia e a abertura de uma exposição de pintura dos alunos.

Será no dia 10 de Junho, às 16 horas, R. Sr. dos Aflitos, 1 - Aveiro.

Para quem não puder ir este domingo, a exposição continuará até ao fim do mês de Junho, com abertura das 19 h às 21,30h (dias de semana).


A exposição será colectiva, com trabalhos de alunos mais experientes e também de alguns principiantes (nos quais me incluo).

Como não posso divulgar aqui os trabalhos alheios - alguns bastante bons - deixo um dos meus: a minha primeira tentativa de representação de água e céu (sol-posto). A este nível ainda é prioritária a aprendizagem das técnicas, pelo que não há grandes voos na criatividade.

Para quem não conhece a Nova Acrópole, acrescento ainda que promove várias actividades, sendo a pintura apenas uma delas (uma vez por semana).

mar e rochas - acrílico sobre tela - Margri


E já que festejamos o 10 de Junho, por que não um soneto de Camões?

Sobre o tema das contradições amorosas, que não pouparam o grande poeta:

Tanto de meu estado me acho incerto,
que em vivo ardor tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio,
o mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao céu, voando,
num' hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar um' hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora!

Luís de Camões


Mas também sabemos que a obra épica de Camões -"Os Lusíadas"- é ao mesmo tempo sublime e complexa, pelo que, quando é analisada nas escolas, só alguns alunos conseguem gostar dela.
Eis um pequeno poema, algo satírico, sobre a forma como se ensina (ou ensinava) Camões - especialmente dedicado a quem nunca conseguiu apreciá-lo:


Epigrama

O poeta Luís de Camões
há muito que morreu.
Parece que faleceu
por ver as gerações
a dividi-lo no liceu.

O poeta Luís de Camões,
aventureiro e soldado,
encontra-se sepultado
no cemitério das orações,
entre o sujeito e o predicado.

Sá Matos, O Pomar das Agulhas


à posteriori lembrei-me de outro "pormenor", ao fazer um comentário:
Devemos ser o único país no mundo, cujo dia nacional está ligado à memória de um poeta. Não é bonito?
Quando digo isto a amigos estrangeiros, eles ficam sempre surpreendidos e admirativos, já que na maior parte dos outros países o dia nacional tem a data de uma revolução ou feito bélico.

domingo, 3 de junho de 2007

Meme viral

Em seguimento da memomania que anda por aí (cuidado, são vírus mutantes e ainda não há vacina para eles!), recebi mais uma proposta da EU MULHER.
Embora, como já antes disse, não simpatize muito com "correntes", às vezes há virusinhos simpáticos que apetece deixar entrar, como é aqui o caso:
É que a proposta da minha amiga é de criar alguma coisa, o que torna o desafio mais difícil, mas também mais interessante.
E ela própria deixa uma frase sua, que transcrevo (agora tenho que pôr aspas, já passa a ser citação):
"Somos como as águas de um rio. Parecemos sempre os mesmos, mas em cada momento que passa estamos em pleno movimento e transformação" - EU MULHER

Não vou comentar, está bastante explícito.

É portanto a minha vez (e aproveitando a corrente... do rio):

Um pouco de água turva pode manchar a limpidez de um riacho; um pouco de água pura tornará mais claras as águas turvas. Também nós deixamos sempre um pouco das nossas cores por onde quer que passemos... mesmo virtualmente.


Pronto, não é literatura nem sabedoria socrática, mas é o que neste momento tive vontade de dizer.


E já que estamos numa de criação, e já que os rios e regatos vão dar ao mar, aqui ficam umas criaçõezitas cá da firma, com materiais e motivos marítimos:





(Cola, tinta e dedos de Michel e Margri)


Como habitualmente, não faço nomeações.
Mas se alguém se sentir inspirado e quiser continuar... é só pegar a deixa (quero dizer, o vírus)!