terça-feira, 17 de Junho de 2008

Ausência

Por falta de tempo, de disposição, de assunto... por outras prioridades... pela quebra de entusiasmo "internético"... tenho andado ausente de aventuras bloguísticas.

Pedi emprestado ao Pessoa este poema, que eu não teria talento para escrever, mas que, neste momento, me assenta razoavelmente.

Até uma próxima... ou até um dia...


Bóiam leves, desatentos,
meus pensamentos de mágoa,
como, no sono dos ventos,
as algas, cabelos lentos
do corpo morto das águas.
***
Bóiam como folhas mortas
à tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
pós remoinhando nas portas
das casas abandonadas.
***
Sono de ser, sem remédio,
vestígio do que não foi.
Leve mágoa, breve tédio,
não sei se pára, se flui;
não sei se existe ou se dói...
***
Fernando Pessoa
*************
***

segunda-feira, 31 de Março de 2008

Tentação

Não foi a Eva que deu uma dentada nesta maçã; fui euzinha (na que serviu de modelo).
É certo que eu sou bem uma filha de Eva: se estivera no lugar dela e algum deus me houvera proíbido o fruto da árvore do conhecimento, nem precisaria da tentadora serpente para dar a tal dentada.
Alguém quer provar?


frutos - pintura acrílica, utilizando uma massa à base de farinha de madeira
para dar um pouco de relevo

sexta-feira, 21 de Março de 2008

9º C em grande...

Na sequência de um vídeo do You Tube, "9º C em grande":

Finalmente, o problema da indisciplina e desrespeito escolares tem honras de 1ª notícia nas televisões.
E tudo graças a um telemóvel: não me refiro ao da aluna que barafustou com a professora - esse foi apenas mais um pretexto - mas ao do outro aluno que, graças ao seu telemóvel com câmara, pôde filmar a cena.
É que, quando não se vêem imagens, ninguém acredita no que é o dia a dia de muitas escolas.
E este problema (o de fundo, não o circunstancial) tem vindo a invadir um número crescente de estabelecimentos escolares, e já há vários anos, bem antes de toda a gente ter telemóveis.

Não é só a violência (que agora até tem um nome inglês, para se poder dizer que é internacional); é também a indisciplina feita de barulho, gritos, agitação, palavrões e brincadeira constantes dentro das salas de aula, que impedem o trabalho escolar e contribuem largamente para os resultados que conhecemos.

Mas normalmente culpam-se os professores - que não sabem cativar os alunos, tornar as aulas interessantes, afirmar-se, etc., etc.
Eu gostaria de ver quem diz isto a trabalhar com certas turmas que me passaram pelas mãos!
Eles nem imaginam os malabarismos que os professores fazem...

Há umas décadas atrás, quando havia alunos sistematicamente indisciplinados e perturbadores, os professores ainda podiam expulsá-los da aula, e até marcar "falta disciplinar".
E agora, alguém pensa que isso ainda é possível?
As faltas (disciplinares já nem existem) já não contam para nada, e expulsar os alunos da sala implicava que as escolas tivessem estruturas e pessoal para tomar conta deles; onde é que isso existe para um elevado nº de casos?

O problema não é das escolas nem dos professores - com pouquíssimos meios - é do SISTEMA e do laxismo em que o deixaram cair.


Não basta agora insurgirmo-nos apenas contra o fenómeno específico e restrito dos telemóveis nas aulas: Há mil outras maneiras de perturbar o trabalho escolar.
Precisam-se antes de regras claras e dos meios de as fazer cumprir (persuasivos, mas também coercitivos).

Se assim não for, que cidadãos estamos a preparar? Como nos podemos admirar que mais tarde eles não saibam cumprir regras nem ser responsáveis, seja na estrada, no trabalho ou na família?

Bem, só espero que depois disto, os telemóveis com câmara de filmar não sejam banidos das salas de aula, pois muito há ainda para gravar e mostrar, sem que o objecto litigioso seja apenas outro telemóvel (alvo, agora, de todas as indignações).


E já que é a única maneira de dar a conhecer o problema e de fazer com que as pessoas acreditem e se indignem... vivam os telemóveis - com câmara!


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P.S.: Após esta minha gota de água para o problema focado, vi outras gotas, das quais destacaria esta , pela profundidade e seriedade.

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sábado, 15 de Março de 2008

Novo Blogue

Estes dois gostam de escrever e desenhar:

À Regina ("velha" amiga) não lhe falta imaginação e tem queda para a escrita; o João faz as ilustrações.

Nada de extraordinário, a não ser o facto de nenhum deles o poder fazer com as mãos (nem mesmo com os pés).

Parece-me pois que este blogue é uma ode à vontade e à coragem, mesmo que eles não ponham as diferenças em 1º plano.

Afinal, somos todos diferentes, e todos temos as nossas deficiências.

A visitar, este dueto de três:

http://duetodetres.blogspot.com/

sábado, 8 de Março de 2008

INTERMITÊNCIAS

Após este interregno, e para não perder completamente o hábito, venho aqui partilhar alguns dos trabalhos que ainda vou fazendo, quando há tempo.
Apesar de não ter uma grande produção, este hobby tem funcionado como uma terapia, quando o moral começa a afundar.


O objectivo de mostrar aqui os meus medicamentos não é que digam sempre que "estão muito bem", mas antes que dêem opiniões sinceras, eventualmente até com sugestões (não estou tão em baixo que não possa receber todas as opiniões).


E quem tiver "olho clínico", por favor não se iniba de apontar as imperfeições ou os aspectos menos estéticos. Desde já agradeço esse "feed-back".


E como este blogue é, para mim, apenas um passatempo, a fazer por prazer e só quando apetece (e há tempo), não me vou preocupar com a regularidade das postagens; creio mesmo que elas vão ser esporádicas e isentas de qualquer noção de obrigatoriedade ou periodicidade.


Mas quando eventualmente passarem e quiserem deixar comentários ou recados, também não tem que ser na última ou mesmo numa das últimas postagens. Pode ser em qualquer uma.

Embora o costume na blogosfera seja comentar sempre a última, aqui não há "regras" nem "tradições". Informalidade é o meu actual estado de espírito.


Há só um pedido, que escrevi no cabeçalho para estar sempre visível, e que agradeço tenham em conta (e não levem a mal).


E agora, aqui vão os retratos de alguns dos meus "bébés" recentes:


Mar - (acrílico sobre tela) - inspirado nas vagas da Vagueira

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Aqui começou uma nova aventura: a pintura a óleo.

O acrílico seca demasiado depressa, o óleo demasiado devagar; como encontar o meio-termo?

jarro - (o 1º óleo sobre tela)
Feito para alguém que gosta de flores.
O interessante é que agora posso oferecer presentes mais pessoais, sem ter que andar à procura daquela prendinha original...; (só não sei se é ao gosto de quem recebe; ninguém me vai dizer que não gosta, e que preferia guardar o presente num canto escondido dos olhares... - o eterno dilema!)
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gato azul - óleo sobre tela

Não podia faltar um gato, pela afinidade do carácter independente.
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flores - óleo sobre tela

Estas flores roubei-as à Jardineira...

... mas já as devolvi.





sábado, 29 de Setembro de 2007

Uma palavrinha

Durante alguns meses, a visita frequente a blogs, os diálogos em que participei, as amizades virtuais que se foram estabelecendo, tornaram-se quase uma rotina, para não dizer um vício.

Contudo, quando um problema importante surge (relacionado com a saúde de um familiar), tudo o resto se torna tão secundário... tão sem importância...

Agora que a preocupação diminuiu (sem estar completamente ultrapassada), permito-me vir aqui "dar uma palavrinha" a quem por aqui tem passado e até deixado mensagens, que muito me tocaram e agradeço.

Mas acho que, pelo menos de imediato, não irei "postar" de modo regular, até porque as actividades "artísticas" subjacentes ao blog também têm estado paradas.

E, para completar o quadro, uma avaria no disco duro do computador fez-me perder tudo o que tinha em arquivo, incluindo fotos para o blog. Substituído o disco, agora é a internet que está intermitente...

Mas espero, pelo menos, ir visitando alguns amigos virtuais sempre que possível, embora sem a regularidade anterior.

Desculpem pois este longo silêncio, e deixo um grande beijinho para todos.




sexta-feira, 7 de Setembro de 2007

Pausa

A pausa ainda irá continuar, apenas neste mundo virtual, por contigências do mundo real...
Entre outras (sem ser a principal), alguns problemas com o computador.

As visitas virtuais serão também menos frequentes, mas lá irei... um dia destes.

Até sempre, e obrigada pelas mensagens já deixadas.

quinta-feira, 21 de Junho de 2007

Férias

(Nascer do Sol no solstício de Verão em Stonehenge - Inglaterra)


Aproveitamos o Solstício de Verão para iniciar férias - descansar, reorganizar coisas, viajar, visitar amigos e familiares longínquos.

Assim, o blogue terá também direito a uma pausa.

Quando reabrir (data imprevisível), darei sinal aos visitantes regulares, bem como a outros que aqui deixem esse desejo.

Até lá, agradeço a todos os que por aqui têm passado (ou vierem a passar), desejando-lhes um bom Verão e óptimas férias.

E porque, especialmente este ano, quero lembrar Miguel Torga (o seu centenário é em Agosto, mês de férias), aqui deixo mais um pouco da sua poesia:


Prelúdio

Reteso as cordas desta velha lira,
tonta viola, que de mão em mão,
se afina e desafina, e donde ninguém tira
senão acordes de inquietação.

Chegou a minha vez, e não hesito:
Quero ao menos falhar em tom agudo.
Cada som como um grito,
que no seu desespero diga tudo.

E arrepelo a cítara divina.
Agora ou nunca - meu refrão antigo.
O destino destina,
mas o resto é comigo.


Miguel Torga,
em Orfeu Rebelde



sábado, 16 de Junho de 2007

VIDA



















flores - pedras e conchas

(Colagens - Michel G.)



Flores para celebrar a Vida, que veio lembrar quão frágil é o fio que a mantém.

Há abanões que ajudam a dar mais valor a cada minuto, a cada palavra, a cada gesto... (que se disseram e fizeram ou que ficaram por dizer e por fazer).


Não é preciso vasculhar muito, nem procurar palavras rebuscadas, para encontrar o poema adequado à situação:



A Vida

A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve,
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai;
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave;
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou.
A vida - pena caída
Da asa de ave ferida -
De vale em vale impelida
A vida o vento a levou.


João de Deus


sábado, 9 de Junho de 2007

Aveiro - Dia de Camões - Exposição de pintura

Especialmente para os aveirenses ou pessoas da região, a Nova Acrópole (ver) festeja o dia de Camões com um recital de poesia e a abertura de uma exposição de pintura dos alunos.

Será no dia 10 de Junho, às 16 horas, R. Sr. dos Aflitos, 1 - Aveiro.

Para quem não puder ir este domingo, a exposição continuará até ao fim do mês de Junho, com abertura das 19 h às 21,30h (dias de semana).


A exposição será colectiva, com trabalhos de alunos mais experientes e também de alguns principiantes (nos quais me incluo).

Como não posso divulgar aqui os trabalhos alheios - alguns bastante bons - deixo um dos meus: a minha primeira tentativa de representação de água e céu (sol-posto). A este nível ainda é prioritária a aprendizagem das técnicas, pelo que não há grandes voos na criatividade.

Para quem não conhece a Nova Acrópole, acrescento ainda que promove várias actividades, sendo a pintura apenas uma delas (uma vez por semana).

mar e rochas - acrílico sobre tela - Margri


E já que festejamos o 10 de Junho, por que não um soneto de Camões?

Sobre o tema das contradições amorosas, que não pouparam o grande poeta:

Tanto de meu estado me acho incerto,
que em vivo ardor tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio,
o mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao céu, voando,
num' hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar um' hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora!

Luís de Camões


Mas também sabemos que a obra épica de Camões -"Os Lusíadas"- é ao mesmo tempo sublime e complexa, pelo que, quando é analisada nas escolas, só alguns alunos conseguem gostar dela.
Eis um pequeno poema, algo satírico, sobre a forma como se ensina (ou ensinava) Camões - especialmente dedicado a quem nunca conseguiu apreciá-lo:


Epigrama

O poeta Luís de Camões
há muito que morreu.
Parece que faleceu
por ver as gerações
a dividi-lo no liceu.

O poeta Luís de Camões,
aventureiro e soldado,
encontra-se sepultado
no cemitério das orações,
entre o sujeito e o predicado.

Sá Matos, O Pomar das Agulhas


à posteriori lembrei-me de outro "pormenor", ao fazer um comentário:
Devemos ser o único país no mundo, cujo dia nacional está ligado à memória de um poeta. Não é bonito?
Quando digo isto a amigos estrangeiros, eles ficam sempre surpreendidos e admirativos, já que na maior parte dos outros países o dia nacional tem a data de uma revolução ou feito bélico.

domingo, 3 de Junho de 2007

Meme viral

Em seguimento da memomania que anda por aí (cuidado, são vírus mutantes e ainda não há vacina para eles!), recebi mais uma proposta da EU MULHER.
Embora, como já antes disse, não simpatize muito com "correntes", às vezes há virusinhos simpáticos que apetece deixar entrar, como é aqui o caso:
É que a proposta da minha amiga é de criar alguma coisa, o que torna o desafio mais difícil, mas também mais interessante.
E ela própria deixa uma frase sua, que transcrevo (agora tenho que pôr aspas, já passa a ser citação):
"Somos como as águas de um rio. Parecemos sempre os mesmos, mas em cada momento que passa estamos em pleno movimento e transformação" - EU MULHER

Não vou comentar, está bastante explícito.

É portanto a minha vez (e aproveitando a corrente... do rio):

Um pouco de água turva pode manchar a limpidez de um riacho; um pouco de água pura tornará mais claras as águas turvas. Também nós deixamos sempre um pouco das nossas cores por onde quer que passemos... mesmo virtualmente.


Pronto, não é literatura nem sabedoria socrática, mas é o que neste momento tive vontade de dizer.


E já que estamos numa de criação, e já que os rios e regatos vão dar ao mar, aqui ficam umas criaçõezitas cá da firma, com materiais e motivos marítimos:





(Cola, tinta e dedos de Michel e Margri)


Como habitualmente, não faço nomeações.
Mas se alguém se sentir inspirado e quiser continuar... é só pegar a deixa (quero dizer, o vírus)!



terça-feira, 29 de Maio de 2007

Confissão

Centenário de um HOMEM


Miguel Torga - nascido a 12-8-1907


Sempre, mas especialmente no ano do centenário do seu nascimento, lembremos o grande Torga.
Grande, porque simples e íntegro, o seu profundo humanismo transparece tanto na sua vida de médico como na sua obra.
Mas era através desta que ele desejava ser lembrado.
E ela vale mesmo a pena.

A complexidade humana (dele, mas também nossa), ressalta neste excelente poema, pleno de auto-conhecimento e de verdade. Embora bastante conhecido, nunca é demais relembrá-lo e meditá-lo (porque esta "confissão" poderia ser a de cada um de nós).


LIVRO DE HORAS

Aqui, diante de mim, eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou. Me confesso o bom e o mau
que vão em leme da nau, nesta deriva em que vou.

Me confesso possesso das virtudes teologais, que são três,
e dos pecados mortais, que são sete,
quando a terra não repete que são mais.

Me confesso o dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
e das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser, de qualquer modo, andanças do mesmo todo.

Me confesso de ser charco e luar de charco
à mistura. De ser a corda do arco
que atira setas acima e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo que possa nascer de mim.
De ter raízes no chão desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem:
de ser o anjo caído do tal céu que Deus governa;
de ser o monstro saído do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu. Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu, aqui, diante de mim!

Miguel Torga,
O outro livro de Job, Coimbra, 1958.


(Os destaques e a translineação são da responsabilidade da autora do blogue: Os primeiros para destacar ideias-chave, a segunda por conveniência de espaço).


terça-feira, 22 de Maio de 2007

Aprender o quê?

Estão a decorrer esta semana as provas de aferição, a Português e Matemática, para alunos do 4º e 6º anos.
Estas provas não contam para a nota dos alunos, mas antes para aferir da eficácia do Ensino, que, nos últimos anos (desde que as provas foram instituídas), não foi muito positiva.

Sem entrar propriamente na polémica do facilitismo actual, contraposto à exigência de outros tempos, (isso fica para outra ocasião), deixo aqui um conhecido e delicioso poema de Fernanda de Castro, relativo a um exame da 4ª classe - não de simples aferição - talvez dos anos 30 ou 40. (Quando os alunos ainda tinham mesmo que compreender o que liam).

Mas o que pretendo é destacar nele os últimos versos, que, com exigência ou facilitismo, me parece continuarem actuais:
Ontem como hoje, continuam a priveligiar-se os conhecimentos académicos, em detrimento da formação humana em outras vertentes (social, ecológica, cívica, de responsabilidade, de tolerância, de auto-conhecimento, etc.)


Reminiscência


"Lisboa, Santarém, Porto, Leiria..."
(eu sabia de cor toda a corografia)
O Senhor Inspector
deu-me a nota mais alta em Geografia
e disse gravemente:
_"Continua. Hás-de ser gente..."

"Ângulo recto, agudo, cateto, hipotenusa..."
(já manchara de giz a minha blusa,
mas respondia a tudo e a professora sorria
enquanto eu papagueava a Geometria).

"...D. Sancho, o Povoador... D. Dinis, o Lavrador..."
(Tinha então boa memória, sabia as datas da História)
1580, 1640, 1143, em Arcos de Valdevez..."

("Muito bem, sim senhor! A pequena é simpática")
E depois, em voz alta, o senhor Inspector:
_"Vamos lá à Gramática."
_"...E, nem, nem só, mas também... conjunções copulativas".


(Eu pensava na alegria que ia dar à minha mãe,
nas frases admirativas da velha D. Maria,
a minha primeira mestra:
-Tão novinha e ficou "bem"! -
e esta suavíssima orquestra acompanhava em surdina
o meu primeiro exame de menina
aplicada, orgulhosa, inteligente...)

_"Vá ao quadro, menina." Docilmente, fiz os problemas,
dividi fracções, disse as regras das quatro operações
e finalmente,
o senhor Inspector felicitou-me, quis saber o meu nome
e declarou-me que ficara "distinta", sem favor.

Ah! Que esplendor!
Que alegria total e sem mistura!
Que orgulho, que vaidade!
Olhei de frente o sol, e a claridade
não me cegou, julguei-a quase escura...
As estrelas, fitei-as como iguais. Melhor, como rivais...
E a Humanidade pareceu-me um rebanho sem vontade,
uma vasta colónia de formigas...
(As minhas pobres, tímidas amigas!)

Pouco depois, em casa, a testa em fogo, o olhar em brasa,
gritei num desafio à terra, ao céu, ao mar, ao rio:

_"Ó mãe, eu já sei tudo!"

No seu olhar tranquilo de veludo, naquele olhar profundo,
que era todo o meu mundo, passou uma ironia tão velada,
uma ironia tão funda, tão calada,
que ainda hoje murmuro cada dia:

_"Ó mãe, eu não sei nada!..."

Fernanda de Castro, em Trinta e nove Poemas


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NOTA: A propósito do "auto-retrato" da postagem anterior, e para dissipar algumas dúvidas que surgiram:
Cronologicamente tenho 61 anos (para quem não tenha ido ver ao "perfil"), e referi que tinha feito o "retrato" a partir de um espelho interno, num momento de óptimas lembranças e de euforia (como num sonho).
Alguém vê a sua idade e imperfeições nesse estado de devaneio e ilusão? Se eu até "vi" uma imagem muito melhor que a do desenho......

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sexta-feira, 18 de Maio de 2007

SORRISO

Duma encantada ilha atlântica e pela mão da APRENDIZ DE VIAJANTE, recebi há dias o seguinte "meme":

"A felicidade é sobretudo uma atitude que passa por um sorriso", junto com a informação de que apenas precisamos de 14 músculos para sorrir.


Ao contrário do que inicialmente pensei, o meme não é nenhum prémio, embora tenha um pouco a forma de "corrente", uma vez que é para receber, fazer o que se quiser com ele e em seguida passar o novo produto a outros.
Nesta última parte, e já que sou um tanto refractária a correntes, vou passá-lo à minha maneira, sem fazer nomeações formais.

Quanto ao que posso fazer com ele (e uma vez que tudo é permitido, incluindo desenhos, frases, etc.), comecei por ler a frase e concordar que é óptimo ser feliz, e que sorrir à vida ajuda muito.

E pensei mais: se é bom, por que não mostrar o meu sorriso?
Ora é isso mesmo: um auto-retrato sorridente.

Toca a pegar num espelho, papel e lápis, e começar a mover os tais 14 músculos.
Bem, tentei várias poses, mexi e remexi músculos, mas o espelho não reflectia nenhum sorriso interessante.

Então tentei outra táctica:
Comecei a pensar em momentos felizes, em pessoas extraordinárias com quem me cruzei na vida, em tanta coisa que me fez crescer... E aí... Eureka! - comecei a sorrir por dentro e por fora, não sei com quantos músculos.

De tal modo que nem precisei mais do espelho, já que comecei a ver a minha imagem reflectida por dentro. E foi nessa que peguei para fazer o tal auto-retrato sorridente.

Só que...azar ou má fortuna... a habilidade é pouca e os lápis não tinham todos os tons de que precisava.
Resultado: saiu apenas este esboço, muito inferior à imagem do meu espelho interno; porque esse espelho tinha-me mostrado um sorriso muito mais brilhante, num rosto muito mais jovem e belo que este que aqui deixo.
Paciência! Tentem compensar com a imaginação.



Dada a insuficiência do retrato, acrescento duas citações sobre o sorriso e o olhar, com as quais completo o meu "meme":

"Sorriso é uma luz na janela do rosto mostrando que o coração está em casa"
- autor desconhecido.

"Os homens são constituídos de tal modo que resistem à argumentação mais ponderada; no entanto, cedem a um olhar" - Honoré de Balzac
(ignoro se Balzac se referia aos "homens" no sentido de seres humanos em geral, ou, mais prosaicamente, no sentido de "machos" humanos).


E agora, para concluir e passar o testemunho, convido toda a gente a sorrir, ou mesmo a rir.
Podem servir-se para isso dos músculos, de lembranças, de anedotas, tudo serve ...
Depois convido a comunicar o resultado: podem fazê-lo aqui nos comentários, mas seria bom que alguns o fizessem também nos próprios blogues. (Considerem-se meus convidados).
Aceitam-se todas as linguagens: frases, textos, poemas, desenhos, músicas... e tudo o mais que a imaginação permitir.

Bons sorrisos!

E façam favor de ser felizes!




domingo, 13 de Maio de 2007

Bucólica



Cansaços... lassidão...
hoje apetece-me um pouco de ... bucolismo


(é um daqueles dias em que "pensar",... nem pensar!)
(mas sempre há qualquer coisa para partilhar)


papoilas - acrílico sobre tela - Margri


De tarde

Naquele piquenique de burguesas,
houve uma coisa simplesmente bela,
e que sem ter história nem grandezas,
em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
foste colher, sem imposturas tolas,
a um granzoal azul de grão-de-bico
um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima de uns penhascos,
nós acampámos, inda o sol se via;
e houve talhadas de melão, damascos,
e pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
dos teus dois seios, como duas rolas,
era o supremo encanto da merenda,
o ramalhete rubro de papoulas!

Cesário Verde


segunda-feira, 7 de Maio de 2007

PRÉ-mio


Ui! Vejam lá que até aqui chegou um desses troféus que nesta altura polulam (poluem?...) a blogosfera.

Agradeço a boa intenção à minha amiga bloguista do "Je vois la vie en vert".
Como ela o atribuiu pela criatividade e toque francês, ele só pode ir para o colaborador do blogue (Michel), autor da maior parte das criações aqui passadas.
Por isso, resolvi modificar o "boneco", a fim de o tornar mais adequado ao prémio atribuído (exibo-o aqui só em atenção a esse colaborador e apenas nesta postagem; não o vou guardar como troféu na banda lateral).

Como me indicava um "link", digo, ligação, para saber as regras, lá fui à procura.
Mas estava em inglês (este tipo de coisas costuma vir dos States); ainda ninguém se tinha dado ao trabalho de o traduzir, já que nas colónias é sempre imposta a Língua do Império.
Só que eu, indígena convicta, não tenho que perceber o linguajar do imperador Bush ou de Sua graciosa Majestade, a imperatriz, e portanto não tenho regras a cumprir. Que bom!

Sem deixar de brincar com esta coisa, direi mais a sério:

1 - Isto parece uma daquelas cadeias que se recebem por "mail"
(vá lá, aqui rendo-me, já que "correio electrónico" é muito comprido), com recomendação de não interromper (eu sempre interrompo, ou, se gosto, envio para quem me apetece, sem ligar ao nº indicado de pessoas).

2 - Tem um aspecto competitivo, que não me agrada muito: porquê distinguir uns e não outros, também interessantes?

3 - Li por aí que se destinava aos blogues que "fazem pensar". Então e os que fazem rir, ou emocionar-se, ou aceder à partilha de qualquer coisa, não têm mérito?

Acho que um blogue é por natureza aquilo que o seu autor quer exprimir ou partilhar num dado momento, e daí a enorme variedade de géneros, estilos e temas, que fazem a riqueza da blogosfera.

Por tudo isto, vou mais uma vez interromper a cadeia.
Se quiserem saber os blogues que visito, alguns deles (só alguns) estão aqui ao lado, e há para vários gostos. São mais que 5, mas eu também não seria capaz de escolher nem 5, nem 10, nem 20.

Bem, agradeço na mesma a "Je vois la vie en vert" (ligação ao lado), um blogue cheio de sensibilidade e intercultural, onde se podem ouvir belas músicas e canções (à escolha), especialmente francófonas, mas não só. Estamos tão ensopados em cultura anglo/americana, que vamos esquecendo outras - e até a nossa - tão ricas de conteúdo e beleza.



Esta postagem foi apenas um parentesis. Podem continuar a comentar na postagem abaixo.



sexta-feira, 4 de Maio de 2007

Corujas, Palavras.... - 1

Não sei se as corujas são animais sábios, mas vou aproveitar o símbolo para associar corujinhas com frases que alguém disse e me fizeram pensar.
Não é que todas as citações sejam obrigatoriamente sábias, mas escolhi algumas que, pelo menos para mim, têm um pouco de "sumo".

Já agora, digam vocês também se alguma(s) frase(s) vos tocou um bocadinho, ou se gostaram mais de alguma das corujinhas.

corujas, mochos - colagens e pintura: Michel G. e Margri
"Não há nada mais fácil do que achar defeitos: não é preciso talento, nem sacrifícios, nem inteligência para a gente se estabelecer no ramo das reclamações". - Robert West

"A ostentação é uma fonte de sofrimento, e a época feliz da vida começa quando desistimos dela". - Nicolas Chamfort

"Quem encontra sem procurar, é porque já procurou sem encontrar" . - autor desconhecido

"Os seres humanos talvez nunca sejam tão assustadores como quando não têm dúvida alguma de que estão certos". - Laurens van der Post


"A Felicidade é um perfume que não se pode espargir sobre os outros sem deixar cair algumas gotas sobre nós mesmos". - Emerson

"Quando encontrar alguém que seja desagradável para os outros, pode ficar certo que essa pessoa não está satisfeita consigo mesma; a intensidade da mágoa que causamos aos outros é directamente proporcional ao sofrimento que sentimos dentro de nós mesmos". - S. J. H.


terça-feira, 1 de Maio de 2007

Maio: flores da Felicidade



(foto tirada da Internet)


Hoje, 1 de Maio, oferecemos a todos os amigos virtuais um virtual raminho de lírio-do-vale ou flor da felicidade ("muguet", em francês, não sei se alguém conhece o nome em latim).

Embora esta oferta não seja uma tradição nacional, é-o em alguns outros países nesta data; é-o por exemplo em França, país de origem do Michel - colaborador discreto deste blogue, mais dado às colagens que às informáticas ou às palavras.

Além de acharmos esta flor campestre de uma beleza simples e encantadora (como a amizade), o gesto de a oferecer costuma ser uma maneira de desejar felicidade aos que a recebem.

Tem certas semelhanças simbólicas com o nosso
(antigo) dia da espiga, mas este ramo ou haste é só de uma planta, e só tem significado se for oferecido (além de ser numa data diferente).

E é também uma forma de agradecer a todos os que por aqui têm passado e deixado mensagens, sejam de simpatia, de reflexão, ou apenas para deixar um sorriso.

Obrigada e um raminho de "muguet" para todos. (Os desejos de Felicidade e Paz não são apenas virtuais).

Margri e Michel




terça-feira, 24 de Abril de 2007

LIBERDADE




Asas, símbolo da Liberdade:
Que ninguém se prive de as dar
à mente e ao coração !


aves - colagens de conchas e pedras - Michel G.




Liberdade: de tão gritada, vai sofrendo algum desgaste e esquecemos algumas das suas vertentes.
Hoje quero dar destaque a uma das esquecidas: A liberdade de pensamento, aquela que vem de dentro de nós, mais que de fora.
Essa não precisou de 25 de Abril para existir, mas ainda precisaria de uma verdadeira Revolução mental para se implantar e manifestar.

Porque é tão mais fácil não pensar por si próprio...
É tão mais fácil aderir aos moldes e normas pré-fabricados, deixar-se levar pela corrente, ir onde outros vão, fazer o que outros fazem, seja porque é tradicional ou porque, ao contrário, está na moda...

E as nossas próprias escolhas?
Quando elas forem verdadeiramente nossas, respeitando as dos outros e aceitando plenamente as suas diferenças, então Liberdade terá todo o seu sentido.


Liberdade

_ Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
a pedir-te, humildemente,
o pão de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
nem me ouvia.

_ Liberdade,
que estais na terra...
E a minha voz crescia
de emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
a fé que ressumava
da oração.

Até que um dia, corajosamente,
olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
saborear, enfim,
o pão da minha fome.
_Liberdade,
que estais em mim,
santificado seja o vosso nome.

Miguel Torga, Diário XII



Livre

Não há machado que corte
a raiz ao pensamento.
Não há morte para o vento, não há morte.

Se ao morrer o coração,
morresse a luz que lhe é querida,
sem razão seria a vida, sem razão.

Nada apaga a luz que vive
num amor, num pensamento,
porque é livre como o vento, porque é livre.

Carlos de Oliveira,
As Canções Heróicas




domingo, 15 de Abril de 2007

VALEU A PENA



Os barcos são só para ilustrar:
(as etapas, a Viagem, e qual a direcção)

O Poema, esse sim, é para pensar:
(Que Vida? Que balanço? Que conclusão? )



barcos - colagens e pintura: Michel e Margri








































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DEPOIMENTO

Foi na vida real como nos sonhos:
nunca pisei um chão com segurança.
Procuro na lembrança
um sólido caminho percorrido,
e vejo sempre um barco sacudido
pelas ondas raivosas do destino:
Um barco inconsciente de menino,
um barco temerário de rapaz,
e um barco de homem, que já não domino
entre os rochedos onde se desfaz.

Mas o céu era belo
quando à noite o seu dono o acendia;
e era belo o sorriso da poesia,
e belo o amor, dragão insatisfeito.
E era belo não ter dentro do peito
nem medo, nem remorsos, nem vaidade.

Por isso digo que valeu a pena
a dura realidade
desta viagem trágico-terrena
sempre batida pela tempestade.

Mig
uel Torga, in Orfeu Rebelde (1970)



Como Torga, faço por vezes o meu balanço. Não é obrigatório estar na recta final (há tantas etapas ao longo do percurso...)
E, cada vez mais, a minha conclusão se assemelha à dele:

Com as dificuldades para ultrapassar; a alegria para reconfortar; os erros para reflectir e aprender; com os outros para dar, para receber, ou para conhecer e tolerar a diversidade; com a dor para sair mais forte e apreciar a sua ausência; a beleza e o amor para confiar....... com todas essas tempestades e alguma bonança, também digo que valeu e continua a valer a pena.
(E quando a Vida vale a pena, a Morte já não é um problema).



terça-feira, 10 de Abril de 2007

Miauuu...

Por que me fascinam os gatos?

Não dão o seu afecto tão efusivamente como os cães, é certo.
Mas encontro afinidades com o seu desprendimento, com a sua independência,
com aqueles ares misteriosos e lânguidos...

Por isso às vezes me entretenho a desenhá-los ou a pintá-los,
principalmente sobre pedras,
mais pelo prazer, sem grandes preocupações artísticas
(numa de "nonchalant", filosofia de gato).

Aqui ficam algumas das minhas patadas, com um poema de F. Pessoa,
que talvez tivesse idênticas afinidades.

























Os meus gatos - Pinturas em pedras - Margri


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Gato que brincas na rua
como se fosse na cama,
invejo a sorte que é tua
porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
que regem pedras e gentes,
que tens instintos gerais
e sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
conheço-me e não sou eu.

Fernando Pessoa, 01-1931

sábado, 7 de Abril de 2007

PÁSCOA

Boa Páscoa!... E viva a Vida!!!


(Pedras e conchas - colagens e pintura - Michel G.)

Ufff!... Cheguei!
Vim a correr, como o primo d'América (o Bugs),
porque Páscoa sem mim não é Páscoa...




Mamã!!! Tu não vais deixar que eles comam
o mano, só porque está dentro de um ovinho!...






Alto lá!!!
Neste aqui ninguém toca!
Ou querem levar uma bicada a sério?...



segunda-feira, 2 de Abril de 2007

AS MÃOS - CATEDRAL

"Com mãos se faz a paz, se faz a guerra..."

O quadro abaixo foi um dos meus primeiros trabalhitos em pintura,
e é obviamente de principiante, quase sem técnica nenhuma.

Mas tem para mim algum simbolismo, já que o fiz a partir da famosa
escultura de Rodin, "A Catedral", essa sim, magnífica.
Foi a maneira que encontrei de prestar homenagem a esse belo
instrumento, as mãos, ao mesmo tempo que a Rodin,
e agora aproveito para reflectir um pouco a partir daí:


Somos feitos de tal modo que não damos qualquer importância
ao que possuímos, a não ser quando o perdemos (temporária
ou definitivamente).
Há uns anos atrás tive essa experiência,
felizmente temporária: devido a uma pequena fractura,
fiquei algum tempo impossibilitada de usar a mão direita.
Nessa altura dei-me conta de quão extraordinárias e indispensáveis
são as mãos (e naturalmente tudo o resto).


Agora, olho para elas de modo diferente e, como Rodin, vejo nelas
a beleza e o simbolismo
de uma catedral, mas mais indispensáveis.


Quem dera não precirsarmos mais de perdas
temporárias para admirar e valorizar tudo o que temos
ou nos rodeia,
em vez de apenas repararmos no que não temos,
seja de que ordem for, como é nosso hábito!


As mãos - Catedral - Guache sobre papel - Margri

segunda-feira, 26 de Março de 2007

Presentes do mar


Quem não se lembra de, criança, olhar para as nuvens e ver cavalos a galopar no céu, castelos encantados, e tudo o mais que a imaginação permitia?
Porém, os adultos diziam: "São apenas nuvens".
E lá nos habituamos a calar as nossas fantasias, a nossa criança interior.
Mas um dia, porque "o sonho comanda a vida", ousamos abrir de novo as portas à imaginação:
Agora é o mar que nos traz estranhos animais ou figuras humanas: às vezes é só pegar num resto de tronco corroído pelas vagas, outras vezes apanha-se uma pedra e acrescenta-se-lhe uma "cabeça" ou duas, com outras pedras, cola-se, enverniza-se, e... já está.
Nem sequer dá muito trabalho a fazer, e para encontrar os materiais é só aproveitar as caminhadas à beira-mar (ou beira rio) com olhos curiosos e mente destravada.

Felino preparando-se para o ataque

Amor de mãe



Paixão





Meditando
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quinta-feira, 22 de Março de 2007

A Primavera dos Animais

Colagens de Michel G.
Cuidado: Estou a ver-te!...
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"Deixem-me dormir a minha soneca... Preciso é de sonhar..."

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"Eu cá não tenho tempo p'ra dormir! Há que fazer o ninho depressa, os filhotes não vão tardar..."

terça-feira, 20 de Março de 2007

Renascer

O equinócio da Primavera serve de mote para iniciar este blogue, com algumas imagens a sugerir o renascer da Natureza, tal como renascem os nossos corações, sempre à espreita de um raio de sol - qualquer que ele seja - para desabrochar.

Primavera - Acrílico sobre tela - Margri




"Há uma Primavera em cada Vida,
é preciso cantá-la assim florida,
pois se Deus nos deu voz foi p'ra cantar..."
(Florbela Espanca)




E se houvesse mais que uma Primavera em cada Vida?
Naturalmente pensamos apenas na primavera física, por volta dos 20, quando há " sangue na guelra".
Mas outras, de outro tipo, podem acontecer em qualquer idade, quando o coração e a mente, reconciliados e mais serenos, se abrirem à realidade total, com toda a paleta de cores e matizes, como em todas as Primaveras.

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(Colagens de materiais recuperados - pedras, pedaços de conchas, bocados de madeira..., -feitos por Michel G., colaborador deste blogue)


Corujas e flores
Flores, sempre flores, fonte permanente de inspiração;
e, em todo o lado, a vida a renovar-se...



Coruja
"Sei que sou o símbolo da sabedoria, mas, nesta época,
o mais sábio é arejar as ideias e abrir novos horizontes!
Já Blake dizia que "quem nunca altera a sua opinião
é como a água estagnada e começa a criar
répteis no espírito".